Minha capacidade de pensar já estava quase no fim, eu já estava chamando por “Jesus, Maria, José e o Espírito Santo”, acreditando que a “Santíssima Trindade”, pudesse me ajudar mais do que qualquer uma das minhas ajudas de assento pernas ou mãos pudessem comunicar. Não conseguia compreender o que estava acontecendo.

Minha égua que já estava fazendo 4 anos não conseguia executar de uma maneira que pudesse me satisfazer um exercício absolutamente básico, chamado “ceder a perna”. A maioria dos potros de dois anos não tem a menor dificuldade em executá-lo.

Estava a ponto de pirar, ela não parava de escabecear. Sua movimentação era tão forte que mais parecia um desses bonecos de mola quebrados que pulam de uma caixinha quando tiramos a tampa. Era tão forte que dava para ouvir o bridão batendo nos seus dentes.
Estava sozinha, parada no meio daquela arena, a cerca toda cheia de poeira. Um frio do cão. Desanimada, soltei as rédeas deixando-as cair logo a frente do pito da sela, enfiei as mãos no bolso da minha jaqueta. A luz florescente da arena era de um tom meio amarelado, que dava um clima desolado e solitário para o cenário.

O silencio daquela noite de inverno só era quebrado pelo som da chuva caindo na no telhado de zinco.

Minha cabeça era um tumulto só. Eu só queria um exercício básico e elementar, “ceder à perna”. Na verdade, apenas um preâmbulo para um movimento lateral mais sofisticado, como o “Apoio” por exemplo. Para executar o exercício de “ceder à perna” o cavalo precisa se movimentar lateralmente e para frente simultaneamente e deve executá-lo o mais alinhado possível,(gosto de poder ver o canto do olho e da narina, do lado que estou empurrando) com rítimo, graça e numa moldura mental tranqüila e relaxada.

“Você já executou essa manobra antes”, pensei em voz alta. “Lembra, aquela vez que a Kate estava montando você”.“Eu vi você fazendo” continuando meu pensamento falado.

Ela deu um suspiro como se respondendo a minha fala.

Eram dez horas de uma noite de inverno. Imaginei as pessoas, no calor das suas casas, depois do jantar, conversando, vendo TV, em fim, desfrutando da companhia dos seus entes queridos. Estava angustiada, cansada, ali naquele cenário desolado e solitário. Gastando um tempo precioso.

Não conseguia fazer a minha égua executar uma manobra absolutamente primaria. De repente, a minha vontade era largar tudo e ir embora pra casa. Não sei que força foi aquela que me fez ficar. Não fui para casa.

Talvez o fato dela ainda estar escabeceando com muita força, dizendo-me de alguma forma que tudo que eu estava fazendo, estava errado, no mínimo inadequado. Outra coisa que pesou na minha decisão de não ir para casa foi de repente, lá no fundo da minha alma uma voz falava “Fix it up and wait”.

Na verdade, eu nunca fui uma pessoa de esperar. Desde cedo aprendi que o melhor de tudo era “Fazer e deixar feito”. Meu slogan sempre foi “fazer, resolver, deixar feito, para poder partir para outra”. Esperar nunca foi o meu forte.

Quando criança na escola, se a professora desse uma lição para sexta feira, na quarta no máximo ela já estava feita, havia em mim uma necessidade interna que queria aquilo feito, o mais rápido possível. Quando adulta se eu tivesse que comprar um carro, levar as crianças no parque de diversões, sair de férias, escalar uma montanha, ir ao cinema ou qualquer coisa que fosse, eu agendava e começava a organizar tudo que era preciso para quando chegasse o momento eu não perdesse um segundo sequer e pudesse concluir aquilo de forma mais eficiente e rápida possível. Uma coisa assim como “mais uma etapa queimada”. Sempre fui assim. Sempre fui a esperta, aquela que não deixa nada para trás. Qualquer coisa que pudesse atrapalhar a minha trajetória me causava uma agonia, uma angustia muito grande.

Qualquer coisa, mesmo. Desde sair com as crianças, escalar uma montanha, comprar um carro ou praticar o exercício de“ceder à perna perfeitamente”, aquilo me causava uma sensação estranha, como se fosse um arrepio, um brilho, uma sedução incrível, como se fosse o doce mais gostoso do mundo. Tudo dentro de mim sempre me conduziu a fazer as coisas acontecerem agora. Como se os desejos pudessem ser cavalos.

Percebi minha égua meio dormindo. Parecia que eu estava lá há um tempo enorme, provavelmente ela já havia esquecido que eu estava no seu lombo. Meus dedos estavam congelados, o barulho dos cavalos de fora querendo entrar na arena para se abrigarem do frio, aquele cenário desolador, aquela angustia, tudo dizia para eu largar tudo e ir para casa juntar-me aos meus. Mas, eu não conseguia sair de cima dela. Não podia deixar as coisas daquele jeito. Isso era contra tudo que eu acreditava. Tinha que estar fazendo as coisas acontecerem. Não podia ir embora sem antes fazer alguma coisa acontecer.

Assim que me posicionei melhor na sela, minha égua acordou levantando rápido o pescoço.

“Vamos tentar outra vez” falei em voz alta , como se quisesse que ela escutasse e me ajudasse a acabar com tudo aquilo o mais rápido possível.

Me ajeitei melhor na sela, ajustei as rédeas e fomos sem problemas até uma das extremidades da arena.

Começamos a caminhar e pedi para ela sair para esquerda, sem perder o movimento para frente e sem perder o alinhamento, mais uma vez, para a esquerda e pra frente alinhada. Não precisou de mais que quatro passos, para que de repente a paleta dela apontasse para o norte e a garupa para o sudoeste. Ela mais parecia um boneco de borracha do que uma égua, igual aquele jogo onde você empurra e o outro puxa. De repente ela virou a cabeça e quis morder o bico da minha bota. E agora José!!!!!!!! Piorou muito mais ainda.

Inclinando o corpo para trás e olhando para as vigas que seguravam a estrutura do telhado, não sabia mais o que fazer. Era pura angustia, agonia, confusão mental. Parecia que eu estava me submetendo a uma tortura chinesa.

De repente aquela voz fria petrificada vindo do fundo da minha alma: “quanto mais devagar você andar, mais depressa vai aprender”.

Eu conhecia aquela voz. Ela pertencia a aquele que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo dos cavalos. O mestre que desafia os cavaleiros da maneira mais radical. Ray Hunt, ele é o mais velho de todos, depois que Tom e Bill Dorrance se foram, ele é o mais experiente de todos. Tem tantas horas na sela que nenhum de nós sequer pode sonhar, seu conhecimento a respeito dos cavalos é tão imenso que seria impossível falar a respeito.

A primeira vez que o vi trabalhando foi numa clinica de 4 dias no Rancho de John Day no Oregon, Iniciação de Potros e Horsemanship.

No primeiro dia ele entrou na arena montando uma potra tordilha chamada Fancy que tinha os olhos mais doces que já vi num animal. Era impossível não reparar.

Ele aprisilhou o microfone no bolso da sua camisa e começou a falar como se fosse um padre numa missa de domingo, despejando uma torrente de criticas em cima dos fieis.

“Estou aqui apenas pelo cavalo” escutamos aquela voz áspera vinda do seu microfone, “O cavalo em primeiro lugar, depois eu, você e qualquer outra coisa que desejarmos. Mas, em primeiro lugar vem o cavalo e estou aqui por ele, só por ele”.

“Você não vai conseguir faze-lo funcionar” disse ele, mudando o seu peso na sela e apoiando aquelas mãos imensas e cheia de marcas no pito da sela “mas se você pode criar uma situação onde ele possa conseguir”.

Olhou para os inscritos no curso de Iniciação de Potros e pediu que trouxessem os potros para dentro do redondel. Aquelas pessoas se levantaram como se estivessem saindo de um transe hipnótico. Copos descartáveis sendo amassados e jogados no lixo e saíram para buscar os potros. “O ser humano é um poço de fingimento comparado com o cavalo. O cavalo não tem um ego e nem tem o orgulho que o ser humano tem”.

O potro de um dos cowboy não queria passar pela porteira e ele estava forçando-o para entrar. Ray riu e disse: “como você acredita que vai conseguir arrastar 600 kg de pura resistência”. O cowboy, constrangido, jogou o cabo do cabresto no chão, empurrou o chapéu para trás e coçou a cabeça. Assim que se desligou do potro e olhou para o mestre procurando ajuda, ele passou pela porteira. Ao que o mestre acrescentou: “está ai a forma de fazer”. O cowboy olhando fixo para o mestre, mostrou todo o seu constrangimento e desaponto com aquela situação.

Ray Hunt iniciou o trabalho com os potros no redondel e ficou com eles até que conseguissem buscar conforto uns nos outros conseguindo trabalhar como uma tropa, compreendendo os limites do redondel, como mudar de direção como se fossem um só animal. Não demorou muito para que a maioria dos potros compreendessem o significado da bandeira e o que o Mestre queria através do seu uso. Com a exceção de uma potra alazã tostada do olho gazo que parecia estar super confusa, dentro daquele espaço restrito. Ela queria ficar parada como uma estatua no meio do redondel enquanto todos os outros galopavam e corcoveavam usando o espaço perto da cerca. Seu corpo estava muito tenso, vacilava querendo ir com eles, mas havia muito medo na sua patas.

Num determinado momento, o mestre deixou os potros e chegou por trás da potra que ainda estava parada no meio do redondel e tentou encoraja-la levando a bandeira na sua garupa. Ela pulou para frente e parou. Era muito visível a sua tensão, seu pescoço já estava molhado de suor.

“Peguem seus potros e deixem essa aqui comigo”, falou o mestre.

Os cowboys entraram no redondel tensos com um andar robotizado, queriam passar um cuidado que na verdade não tinham, para não assustar os animais que estavam nervosos, pois o mestre parou a sessão no meio para atender a potra tensa.

Assim que as pessoas saíram com os seus animais do redondel, Ray Hunt, ainda a cavalo, foi para perto da potra do olho gazo, formando com ela, uma figura como uma carta de baralho e com aquelas mãos enormes começou a fazer uma massagem nas suas orelhas, testa e nuca. De repente, a potra desceu a cabeça, como se por um momento ela tivesse relaxado.

“Ela está com medo do seu próprio movimento e é esse medo que trava as suas patas,” disse ele muito mais para si mesmo do que para as pessoas.

Colocou um cabresto nela e a conduziu até a cerca do redondel e amarrou-a deixando um pedaço grande de cabo, suficiente para ela poder se mexer mas curto o suficiente para ela não se enroscar. Ela estava muito tensa, cheia de medo, suas orelhas iam para frente e para trás, seus olhos arregalados não sabiam onde focar, sua cabeça se mexia de um lado para o outro com muita rapidez. Usando a bandeira nos seus flancos, começou a pedir para ela sair com a garupa para um dos lados.

“Ela está pensando como sair dessa situação. Agora eu só quero que ela pense nisso”.

Tap, tap, tap, tap……….

Ao invés de sair a potra apoiou a garupa na cerca do redondel.

Pelo microfone podíamos ouvir a respiração difícil do mestre, apenas com um pulmão, qualquer esforço maior o sobrecarregava.

Os domadores estavam todos na cerca observando sem nenhuma chance de acreditar que daquela forma, alguma coisa pudesse mudar. Alguém atrás de mim falou baixinho “se fosse meu cavalo eu já tinha arrumado uma razão para ela acreditar que precisaria mudar as patas”.

Tap, tap, tap….., era o que se ouvia junto com a respiração ofegante do Mestre.

De repente sem que pudéssemos ter visto nada ele levantou a bandeira, interrompendo aquele procedimento. O tempo que um pensamento demora para se transformar em voz foi o que aconteceu e a potra, deu um passo saindo da pressão que a bandeira estava colocando.

Aquela fração de segundo e aquele passo que na verdade foi muito mais uma tentativa do que propriamente um passo, foi o começo de tudo.

Voltando para a minha situação, inclinei para frente pegando um punhado de crina não mão e VI que o que estava entre eu e a perfeição daquele exercício estava naquela fração de segundo. Percebi que o meu desejo e vontade de faze-lo acontecer da minha velha maneira “fazer, fazer e terminar logo com aquilo”, não fazia sentido algum para a minha égua.

Naquele momento, percebi (VI) que do ponto de vista dela, executar o exercício “de ceder à perna” não tinha o menor significado. Para ela o significado real era o fato de que eu havia feito uma sugestão nos termos que ela pode compreender e daí depois de pedir educadamente, dei a ela uma fração de segundo, dois ou cinco minutos, não importa, para que ela pudesse se aprontar para a resposta. Assim que ela compreendeu e disse ok, percebi e pedi mais e mais.

A figura do Ray Hunt voltou na minha cabeça, com aquele palito na boca dizendo: “pode ser que você não consiga tudo de uma vez só e de fato você não vai”.

Todo esse meu devaneio durou quinze minutos. O relógio da parede da arena marcava 10:30. Eu podia sentir a respiração dela nas minhas pernas. Agora seus olhos estavam fechados. Me ajeitei na sela. Ela acordou imediatamente levantando o pescoço como que dizendo: “Você quer alguma coisa? Estou aqui”.

“Sim senhora”, eu disse, “vamos tentar mais uma vez”.

Partimos a passo, depois um trote, podia sentir a energia vindo de dentro dela, suas orelhas apontavam para onde estavam os cavalos do lado de fora e nos posicionamos na outra ponta da arena.

“Vamos a passo até aquele primeiro cone e naquele momento quando a sua mão direita tocar no chão eu lhe pedir para ir para a esquerda e continuar alinhada e se manter indo para frente, e só quero um passo”, falei em tom muito mais para mim do que para ela. Eu estava agitada internamente, as orelhas dela se movimentavam para frente e para trás, dizendo que estava comigo, na verdade, eu sabia que ela sempre estava comigo. De novo falei: “só um passo, nada mais”.

Aquilo tudo não tinha nada a ver com a minha natureza. Para mim, quando tenho uma montanha para escalar, não consigo compreender o que um passinho pode representar em relação ao sucesso da escalada. Para mim, prestar atenção em cada passo do caminho, é uma batalha que nunca consegui enfrentar. Meus olhos estão sempre lá no topo da montanha.

Na verdade, na vida real não vejo ninguém prestando atenção no processo, todos querem atalhos para conseguirem chegar no resultado. Mas agora, todas as minhas forças estavam voltadas, não para o exercício “de ceder à perna”, mas para a minha égua e principalmente, para o que ela estava sentindo em relação a aquela situação.

O cone estava se aproximando, ela estava absolutamente alinhada e leve como uma pluma, nós caminhamos, passamos pelo cone, chegamos no final da arena e alinhamos para voltar na direção dos cavalos que estavam do lado de fora esperando do lado de fora do portão. Ela apontou as orelhas na direção dos cavalos. Senti o desejo dela de estar junto deles, abri minha rédea esquerda e pedi para ela sair só um pouquinho, conseguimos dois passos. Ela posicionou seu focinho para a esquerda, seu corpo arqueou-se como uma meia lua. Conseguimos mais alguns passos e ela conseguiu se manter alinhada outra vez, nesse momento pedi para ela parar.

Nada perfeito, nem perto do perfeito, mas estávamos dentro de uma moldura mental amigável, isso era o mais importante naquele momento. Ela não estava irritada, balançando o pescoço freneticamente mostrando a sua frustração. Eu não estava apertando os dentes desesperadamente. Pedi a cara dela e ela veio e assim com carinho, passei a mão pela testa e nas orelhas dela. De repente percebi ela procurando pela cenoura esquecida.

Outra coisa que o Ray Hunt algumas vezes fala é, “Ajustar-se para aquela situação, de maneira tal a poder estar inteiro naquela ocasião”. E a situação aqui era que aquela minha tarefa poderia me tomar mais um dia, um mês um ano, talvez até três, para conseguir “o ceder à perna” como a manobra dos meus sonhos. Eu já não estava mais dentro daquela moldura mental típica da minha natureza, “fazer, fazer e ter aquilo feito o mais rápido possível”. Já, conseguia me satisfazer com aquele pouco que eu havia conseguido. Tive uma sensação incrível, percebendo as sutilezas do meu aprendizado. Percebia minha égua me percebendo de volta para mim.

Não é uma clinica, um livro um DVD que vai me fazer perceber a tremenda quantidade de atenção e sensibilidade requerida para compreender o meu timing em relação ao equilíbrio do meu cavalo. Esse aprendizado é absolutamente individual, uma conversação silenciosa entre eu e o meu cavalo e só pode acontecer quando estamos abertos e compreendendo que tudo se resume em estar constantemente desenvolvendo, “Feel, Timing & Balance”.


Texto: Barbara Weiss
Inspirado: Ecletic Horseman
Versão: Borba

Blog Projeto Doma
blog
Dudi Rédeas
dudi-redeas
Assine nossa Newsletter