O Mestre dos Mestres – Parte 2

Neste artigo, ele descreve o terceiro elemento em seu envolvimento mágico com os cavalos.

Era uma situação constrangedora, aquele castrado preto, um ex-cavalo de corrida, estava completamente fora de controle e sua amazona estava muito amedrontada e nervosa, porque aquele cavalo ricocheteava pelas cercas, parava na porteira, cruzava o meio da arena atrapalhando os outros participantes da clínica de INTERAÇÃO – INTEGRAÇÃO-HOMEM-CAVALO que Tom estava ministrando perto de Elko, Nevada. Quando ficou clara que a situação era um “desastre total”, Tom ofereceu-se para montá-lo.

A mudança veio rápido, depois que Tom o montou, ninguém se lembra se foram dez minutos ou meia-hora, antes dele dizer; “Parece que temos alguma coisa aqui”. Apoiando as rédeas no pito da sela e cruzando os braços, ele trotou e galopou o cavalo preto em círculos, virou para a esquerda e para a direita e parou sem tocar nas rédeas.

books-true-unity-willing-communication-between-horse-and-humanTom Dorrance consegue fazer coisas quase impossíveis com cavalos, conseguindo que a maioria deles façam aquilo que um cavalo é capaz de fazer. Tom e sua habilidade desafiam qualquer tipo de análise. O que ele faz com cavalos parece mágica.

Na primeira parte, falei dos três princípios fundamentais que Tom usa para sua Interação-Integração com cavalos. Primeiro; Tom é totalmente consciente dos menores detalhes que dizem respeito ao cavalo, às pessoas e ao ambiente. Segundo, ele vê o cavalo como seu igual e estabelece uma relação de respeito mútuo.

O terceiro princípio tem qualquer coisa de mágico. É aí que está o mistério. Tom vê a Interação-Integração Homem-Cavalo como um Todo. Tudo fica deformado quando você esforca as partes. É muito difícil captar esse Todo, não importando como você analise essas partes. É muito difícil captar esse Todo, de uma só vez. Até pessoas do ramo, sentem dificuldade em compreender esse “Todo”, mesmo sabendo que as todas partes são interligadas.

No seu livro “True Unity” ele fala dos aspectos Físico, Mental e Espiritual da comunicação entre o cavalo e o ser humano. A parte física pode não ser fácil, mas é compreensível. A conexão entre a atividade mental e a física também é relativamente simples.

O que Tom chama de Espírito é um assunto mais complexo e parece significar mais de uma coisa. Uma parte parece estar muito perto daquilo que ele sente com cavalos; outra parece que deve ser feita com um senso de alma daquilo que é intrínseco do cavalo e que deve ficar inviolável. O que faz isso tudo parecer extremamente complexo.

Às vezes, Tom recomenda um livro que se chama “Kinship With All Life” de J. Allen Boone. Longe do principal ponto de vista dos animais, Boone descreve uma espécie de telepatia mental entre os seres humanos e os animais. Tom parece usar a palavra espírito para descrever esse tipo de coisa.

Tom sabe tanto a respeito dos cavalos e é tão solidário à eles, em todos os seus propósitos práticos, que parece que literalmente vê através dos olhos deles. Ele sempre diz que é preciso ver as coisas do Ponto de Vista dos Cavalos. Sempre senti que o significado disso é estar conciênte das necessidades do cavalo – algo diferente do que ver através dos olhos deles. Qualquer um de nós pode imaginar-se na posição do cavalo e imaginar o que ele sente. O que Tom faz é maior do que isso. Quando ele olha nos olhos daquele cavalo, naquele momento, ele realmente é aquele cavalo, ele é solidário não é apenas uma empatia.

Por ver as coisas do Ponto de Vista do Cavalo, Tom sabe o que o cavalo está pensando e o que pode mudar para mantê-lo atuando diferente. Ele trabalha a partir de informações que a maioria das pessoas não tem, portanto não conseguimos acompanhá-los na seqüência de seus pensamentos e é por isso que seus resultados parecem mágica. Uma coisa é falar sobre como Tom vê os cavalos por dentro. Outra é tentar executar esse processo nós mesmos. De certa forma, isso é uma habilidade que pode ser aprendida, que se pode praticar e utilizar. Nossas melhores experiências vão sair da nossa capacidade de pensar do Ponto de Vista do Cavalo e se, existe alguma coisa dentro da mágica de Tom Dorrance, que se pode aprender é isso: A capacidade de pensar do Ponto de Vista do Cavalo.

Em seu livro Consciência Explicada, o cientista e filósofo Daniel Dennet teoriza que é possível ao ser humano o que é ser um animal. Ele sugere que a atividade mental do cavalo é acessível quando: 1) observamos a estrutura física do cérebro e os órgãos sensitivos do cavalo, 2) estudamos o comportamento dos cavalos, 3) estudamos a evolução do ambiente do cavalo, 4) observamos o ambiente específico do cavalo de hoje e suas ações. Isso vai nos permitir saber, com um alto grau de segurança, o que aquele cavalo está pensando.

O pensamento de Dennet sugere que o conhecimento é a chave principal, e no caso de Tom é isso que faz com que essa compreensão tenha um alto grau de acerto.

Tom vai ao encontro do critério de Dennet. Ele também tem essa observação profunda. Além de ter uma inteligência surpreendente; passou 80 e tantos anos estudando cavalos, dentro de uma variedade enorme de condições. Essa sua habilidade mágica provém desse seu profundo conhecimento e de sua enorme solidariedade para com os cavalos.

Às vezes, ele fala que o processo de aprendizagem ocorre da seguinte forma: primeiro, temos que nos concentrar para definir que queremos fazer um esforço consciente para coordenar nosso cérebro e nossos músculos; terceiro, após essa coordenação, não teremos mais que envolver pensamento consciente para a conclusão da tarefa, apenas pensar em termos de metas.

Tom não tem que pensar sobre aquilo que sabe. Para ele, estar dentro ou fora do ponto de vista do cavalo é uma atividade subconsciente.

Para que o conhecimento seja eficiente, ele precisa ser realizado sem nenhum esforço. Nessa medida ele possibilita um alto grau de segurança no trabalho.

Na primeira parte descrevi Tom como sendo uma pessoa, com um ego muito pequeno ou mesmo sem ego. Um requisito para fazer essas coisas sem esforço é ter habilidade para surpreender o ego e a vontade consciente, pelo menos momentaneamente.

Tendo colocado em três categorias gerais os procedimentos que Tom utiliza em seu bem sucedido relacionamento com cavalos, esta é a quarta, que não consigo compreendê-la direito. Não sei se é alguma coisa que Tom faz ou se é alguma coisa que ele é . Como por exemplo:

Um dia Tom estava me ajudando. Eu estava segurando o cabo do cabresto da minha égua. Era um cabo comprido que tinha um bom pedaço de chão para depois chegar ao cabresto. A égua estava quieta, parecia estar calma e relaxada, quase dormindo. Por alguma razão Tom e eu trocamos de posição. O melhor que posso dizer é que ele segurou o cabo do cabresto da mesma maneira que eu estava segurando, talvez até mais comprido que eu. Ele parecia completamente relaxado e certamente menos ameaçador que eu. Minha égua mudou completamente, de um momento para o outro, ela acordou. Calmamente, sem susto, ela não fez nada mais que apoiar o pé que estava descansando. Assim como uma coisa meio dormindo, desatenta, seus músculos ficaram firmes, levantando seu corpo suavemente. Ela estava confortável, mas parecia olhar para Tom com mais respeito do que olhava para mim, como se a comunicação entre ele e ela fosse num nível que eu não pudesse alcançar.

“É isso que quero mostrar”, disse Tom mais tarde. “Não chamaria isso de espírito se tivesse outro jeito de descrevê-lo”.

Tom passou a maior parte de sua vida estudando cavalos. Sua habilidade de observação é absolutamente precisa, assim como a sua sensibilidade.

Ele desenvolveu essa habilidade, de entrar na mente dos cavalos, sem fazer nenhum esforço consciente. É surpreendente como ele transita entre a análise racional, daquilo que o cavalo pode pensar, para realmente sentir o que o cavalo está sentindo num dado momento, com a mesma facilidade com que você respira. É uma coisa que faz, e que a maioria de nós pode aprender a fazer num nível bastante satisfatório. Com a prática, podemos até melhorar, para nos aproximarmos do relacionamento que Tom Dorrance tem com os cavalos, pequenos avanços significam muito.

*Jim Overstreet cresceu numa fazenda de criação de gados e cavalos. Atualmente, ele e sua esposa moram perto de Big Timber, Montana, onde eles criam suas filhas e QM de origem Hancock.


Texto: Jim Overstreet
Versão: Borba
Publicado: Revista ABQM

 

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