O Mestre dos Mestres – Parte 1

Trinta ou mais cavalos chucros andavam agitados pelo imenso curral da Cow Comp., a sede de verão do Flying D Ranch, em Montana.

O gerente Boots Shell, enquanto laçava um deles, perguntou a um homem baixinho, de cabelos escuros, qual o tipo de cavalo que ele gostaria de montar: “Alguma coisa que tenha sido pouco manejada, seria o melhor”, respondeu o baixinho. Os outros cowboys, que apenas tinham encontrado aquele quieto “horseman” na noite anterior não acreditavam no que estavam ouvindo. Era o verão de 1964, e Tom Dorrance já estava com 54 anos de idade.

Os animais variavam entre 5, 6 e 7 anos de idade e, por uma razão ou outra, nunca tinham sido domados. Eram uma mistura de bom PSI e bom QM, tendo passado a maior parte de suas vidas pastando nesse rancho de milhares de acres; vinham para o curral uma ou duas vezes por ano, e em seguida eram soltos outra vez, sem serem mexidos. Vários tinham sido “domados”; alguém tentou fazer isso, mas sem sucesso.

books-true-unity-willing-communication-between-horse-and-humanTom laçou um alazão tostado de 6 anos, que havia derrubado a única pessoa que tentou montá-lo, e trabalhou-o do chão. Sam Spring, o capataz, disse: “Não sei o que ele fez. Num espaço de tempo muito curto, ele estava recuando o cavalo já encilhado num canto de cerca. Montou-o fora do curral. Sei que a coisa inteira não demorou mais que meia hora. No outro dia, o alazão tostado estava na tropa de serviço e Tom montou-o para pegar outros potros.” Algumas manhãs depois, Tom laçou um baio de 8 anos que só havia sido pego para ser castrado e marcado quando ainda era um potro de sobre ano. Quando o montou, ele não se mexeu, ficou estacado no chão e assim ficaram ali. Qualquer outra pessoa teria usado um chicote até que o cavalo se movimentasse, mas Tom esperou. “Isso pode levar um bom tempo”, brincou. “Talvez algum de vocês tenham que me trazer o jantar”.

Ele parecia saber que as coisas estavam para mudar. “Está com medo; quando começar não vá corcovear, vai correr”, disse ele, com segurança do que estava acontecendo, pois, alguns minutos mais tarde, balançou na sela, mudando o peso nos estribos. O baio tirou uma das patas do chão para não perder o equilíbrio, descobrindo assim que podia movimenta-se, rompendo com uma bala saída do cano de um revólver. Enquanto desembestava por aquele imenso curral Tom ficou na sela o mais quieto possível, não ajustou as rédeas em momento algum. Somente quando o cavalo diminuiu a velocidade, num dos cantos do curral, é que ele levantou uma das rédeas, mais ou menos dirigindo-o na curva: Alguns minutos depois, estava montando-o junto com os outros cowboys.

Naquele verão, cavalos como esse foram montados por Tom no Flying D Ranch. São animais bem diferentes daqueles criados em haras ou o fundo do quintal, manejados desde o nascimento. Cavalos de rodeio são mais fáceis de se aproximar pela simples razão de serem mais previsíveis para alguém que saiba o quão forte e incontrolável pode ser um cavalo desse tipo. O que Tom estava fazendo parecia quase mágica.

Esses exemplos demonstram o quanto o “approach” de Tom Dorrance pode ser bem sucedido. Os princípios que norteiam relacionamento com um cavalo, não importando o quão dócil o animal possa ser.

Esse artigo é sobre Tom Dorrance e seu approach” na Interação- Integração Homem-Cavalo e, mais especificamente, sobre Tom e eu. Conhece-lo e compreendê-lo – em qualquer grau – é uma grande experiência pessoal. O abismo que há entre o que ele conhece e nos comunica, e nosso referencial sobre cavalos é realmente imenso, não se pode medir a gritos. Tentamos preencher essa lacuna da melhor maneira possível. O que estou dizendo a respeito do que Tom é e o que ele significa é uma interpretação minha, é a minha experiência pessoal junto dele.

Embora jamais tenha apresentado um cavalo num campeonato mundial, Tom está entre os maiores “Horsemen” do mundo – alguém poderia dizer – “O Maior”, “O Mestre dos Mestres” – por duas razões. Primeira, ele consegue com que o cavalo queira fazer qualquer coisa que seja capaz de fazer. Segunda, foi ele que iniciou a revolução da maneira como os cavalos são domados (iniciados) e treinados. 

Ele não é evangelista, mas tem uma fala suave, própria de um Mestre. Seu aluno mais conhecido, Ray Hunt, divulgou o método por mais de 20 anos. Agora já existem a segunda e terceira gerações de seguidores, como Buck Brannaman, Brien Newbert, Joe Walters e outros, que ministram clínicas por todo o país. Greg Ward e Doug Jordan são dois treinadores que passaram algum tempo com Tom Dorrance. Nos dias de hoje, pessoas que nunca ouviram falar de Tom estão tentando fazer as coisas a sua maneira.

Ele não se parece nem atua com um mago (feiticeiro). Não é uma pessoa que emite grandes “flashes” de luz, seu trabalho não é propriamente um “show”. É amigo e quieto. De repente seu rosto emite um expressão grave e, no minuto seguinte, transforma-se no rosto de uma criança, com um brilho maroto nos olhos, que parecem revelar uma satisfação com seu mundo interno. Estando agora na casa dos 85 anos, talvez esse comportamento tenha vindo com a idade, mas duvido que ele possa um dia ter sido pretencioso. Se alguma vez sentiu o ímpeto de impressionar pessoas, superou isso há muito tempo. Quando passamos algum tempo junto dele, sentimos confiança e satisfação interna e começamos a sentir a presença do “Gênio”. Rapidamente, convencemo-nos de que ele sabe algo que vale a pena saber – mas compreender exatamente o que é, é muito difícil. Seu conhecimento e sabedoria geralmente são indescritíveis, não é algo que possa ser dito, envolve muitas sutilezas. Temos de estar muito atentos para conseguir aprender o que ele tem para ensinar.

A maioria das coisas que Tom oferece têm que ser aprendidas pelo SENTIR. Ele pode nos guiar, mas temos que sentir as cosa por nós mesmos. Algumas vêem através de nossas mãos e do nosso corpo, mas a parte mais importante vem do mais fundo da nossa pessoa – é uma empatia e honestidade do coração. Tom entrelaça razão, reflexão e emoção no seu relacionamento com cavalos, e estou quase certo de que nunca procede exatamente da mesma forma. Sua abertura de pensamento é muito importante: os procedimentos usados em cada caso são apenas exemplos de aplicações específicas, são princípios gerais. Em certa s ocasiões, Tom pode ver uma situação – que parece similar para nós – de uma maneira completamente diferente e responder de outra maneira ainda. Infelizmente, esses princípios gerais podem ser um pouco obscuros para quem não esteja familiarizado com o que Tom está falando. De certa maneira ele nos mostra “o que procurar”, mas na maioria das vezes, temos que descobrir esses procedimentos nós mesmos.

O “approach” mental de Tom parece tão importante quanto o físico; ele pensa e vê o que está acontecendo. Mas um outro aspecto, o emocional, pode ser ainda o mais importante. Para conseguirmos entender um pouco essa intimidade que Tom tem com os cavalos (que é o que faz com que o cavalo esteja disposto a querer fazer aquilo que lhe está sendo proposto), temos que abrir mão de nossas vontades, desejos e atitudes de superioridade diante do cavalo.

Jack Shell resumiu bem quando disse: “Tom é um homem sem ego”, o que tem muito a ver com seu sucesso com cavalos.Pouquíssimas pessoas estão livres do ego na extensão em que Tom está, mas mesmo o menor controle sobre nós mesmos traz bons resultados.

Nas clínicas, Tom parece trabalhar tão bem com s cavalos quanto com as pessoas, mostrando extraordinária paciência com a ignorância de alguns, com as tentativas de outros, restringindo aqueles com tendência a se exibirem. “Sempre fui capaz de enxergar o melhor do cavalo, e quanto mais velho vou ficando, percebo que tenho conseguido ver o melhor nas pessoas também”.

Em geral, Tom faz três coisas para construir uma relação bem sucedida com cavalos. Primeiro: presta atenção. Por exemplo, ele está sempre consciente, o tempo todo, de como estão os pés, não só os do cavalo, mas os dele e o dos seus alunos também. Ele percebe os menores detalhes. Uma orelha em pé, outra virada para o cavaleiro ou dentes aparecendo contam para nós uma pequena história, mas Tom lê um grande livro; um músculo tenso ou mesmo um passo minúsculo podem determinar muitas situações. Ele passou 85 anos prestando atenção nisso, e lembra-se de tudo.

A segunda coisa – Tom vê o cavalo com seu igual. Para ele os cavalos têm mesmos direitos que ele próprio – nem mais nem menos, apenas iguais. Ele lhes concede o respeito básico de ser. 

Uma vez, ele pediu-me que fizesse alguma coisa com minha égua, dizendo “Não a insulte, só peça”. O tipo de respeito que Tom dá aos cavalos envolve o cuidado para evitar surpresas, e isso dá ao cavalo dignidade.

Tom espera do cavalo o mesmo respeito, faz o que for preciso para obtê-lo e é tão consciente do que faz o animal trabalhar que normalmente não precisa fazer muito para obter esse respeito.

Ele usa técnicas específicas para conseguir o que quer. Como muitos outros “horsemen” ensina o cavalo a se movimentar a partir da pressão das pernas e pede para que as pessoas sigam os movimentos de seus cavalos a passo. Isso significa que cada uma das pernas do cavaleiro deve movimentar-se mais ou menos junto com os anteriores do cavalo. Muitos de nós apertamos muito os músculos de nossas pernas e aumentamos os movimentos desatentamente para conseguirmos um passo mais rápido. Certa vez, quando Tom estava ajudando-me, acho que deve ter acontecido alguma coisa parecida com isso, porque ele simplesmente disse: “Algumas vezes, peço para as pessoas montarem sem as pernas”. Deixei minhas pernas relaxadas e penduradas, elas continuaram a se movimentar suavemente a cada passo, mas agora sem a tensão muscular, já não havia exigência a partir da minha movimentação e também não havia pressão na égua, que começou a trabalhar melhor.

Quando questionado sobre como fazer alguma coisa com o cavalo de alguém, ele assume um ar sério e diz: “Bem, isso depende de uma porção de coisas”. Ele precisa de mais detalhes antes de responder. Às vezes, ele faz uma pergunta, induzindo a pessoa a fornecer detalhes, ou esperam até que estes venham voluntariamente. Freqüentemente, oferece várias sugestões que possam ajudar.

Se você está tentando alguma coisa que não está funcionando, tem que voltar aos princípios básicos, em seguida tentar encontrar outra maneira que possa ajudá-lo a atingir seu objetivo. É isso que faz com que seu “approach” seja tão árduo para nós, pessoas comuns. Certa vez numa clínica, Tom disse: “Não posso lhe dar o equivalente à 85 anos de experiência nesta tarde”.

Em seu livro “True Unity”, que escreveu junto com Mylly Hunt Porter, ele fala de ”Feel, Time and Balance”, Metas e Respeito, mas não discorre sobre metas específicas. Ele sugere como conseguir alguma coisa, sem dizer exatamente o que fazer.

Quando ele, no seu livro refere-se à “Timing”, está falando daquele instante em que o cavalo vai fazer um movimento e daquele mesmo instante em que o cavaleiro deve ajudar o cavalo. Ele está se referindo a um princípio básico: “Apoiar e Preparar”, antes que o movimento aconteça.

Por exemplo: ele estava tentando fazer com que o cavaleiro acionasse as rédeas do bridão quando o cavalo estivesse com a “mão” daquele lado no ar, para que ficasse mais fácil mais fácil ao cavalo se movimentar (desse o passo) na nova direção. Queria que o cavaleiro desse o sinal para o cavalo no instante que fosse mais fácil, para que ele fizesse aquilo que o cavalo estava querendo. Tom fez questão de mostrar ele mesmo, aquilo que estava falando, acionando a rédea, no momento em que a mudança estava acontecendo. O cavaleiro não estava acertando perfeitamente, mas acertava algumas vezes, naquilo que Tom chama de janela de oportunidades. Estava satisfeito porque o cavalo e o cavaleiro estavam fazendo progresso.

Ele comentava freqüentemente: “Quando seu “Timing” está errado, você está muito atrasado. Não vamos nos preocupar com isso para preparar a próxima vez”.

Certa vez ele deixou-me ajudá-lo no trabalho com uma égua nervosa. Primeiro trotei-a e galopei-a para tirar o excesso de energia. “O cavalo primeiro, tem que desenvolver a confiança no ambiente, depois nele mesmo e depois no seu cavaleiro”, explicou Tom. A égua não corcoveou, mas queria correr muito, balança a cabeça e mascava o bridão. Tentei mudar o jeito que manejava as rédeas, mas ela continua igual, não se importando com nada que viesse a fazer, a nível do ajuste das rédeas ou da acomodação do meu corpo em cima dela.

Sob a direção de Tom , andamos ao passo, e realmente gastamos mais de uma hora com isso, conversando e trabalhando: passo e paradas. Quando estava dirigindo-me ao centro da arena, Tom pediu: “Agora pare suas mãos”, suas mãos pareciam dizer, faça isso com calma e devagar.”

Parei de empurrá-la com as pernas, ajustei as rédeas e esperei. Logo que ela parou, imediatamente aliviei a leve pressão que tinha nas rédeas. Assim que repetíamos o exercício, a égua respondia mais e mais prontamente a uma leve pressão, e eu aliviada ainda mais, para manter a suavidade das transições.

Cada parada significava que eu tinha uma nova transição. A partir de uma parada, teria que partir ao passo, e Tom falava em detalhes tão particulares sobre o quanto eu deveria ser educado, de como deveriam ser minha maneiras, nas paradas e partidas, como nunca havia ouvido antes.

Primeiro, deveria manter um determinado contato para mantê-la parada até que Tom pedisse que partíssemos ao passo. Tive que manter uma determinada pressão, para que ela não partisse muito rápido; depois de um tempo Tom disse: “Abra um pouquinho mais para ela”. Movimentei minhas mãos um pouco rápido demais, enquanto pedia q ela que partisse. Mais tarde, Tom diria: “Você está abrindo demais”. O nível de apoio de que ela necessitava tinha mudado, mas eu não tinha percebido. Gradualmente, a égua e eu fomos ficando cada vez mais sincronizados. Tom ajudou-me na atenção com minhas mãos para que elas não reagissem tão depressa, o que fez com que a égua desenvolvesse uma verdadeira confiança. Dessa forma passou a acreditar que eu não a surpreenderia nem a machucaria. Assim que a confiança foi desenvolvida (cresceu), ela conseguiu trabalhar mais relaxada e eu também. /b>“Veja agora, há pouco tempo atrás, tudo que você tinha que fazer era dar-lhe permissão para partir, e agora ela espera você pedir que ela parta”, disse Tom.

No meio de tudo isso ela parou de mascar o bridão e balançar a cabeça para baixo e para cima. Aparentemente essas coisas tinham sido sintomas de um problema mais profundo. Era realmente um problema de confiança. Sua estratégia de auto defesa tinha sido controlar o bridão e a velocidade.

Depois da série de exercícios, que foi feita ao passo, é que veio a compreensão. Tom sugeriu que tentássemos uma mudança de mãos ao galope. Surpreendente mente a “Integração” não foi abalada quando aumentamos a velocidade.

Apesar de essa égua nunca ter feito uma mudança de mãos ao galope, quando lhe dei a abertura para mudar – apoiando-a com minhas pernas e mãos quietas – ela mudou. A primeira mudança foi meio desajeitada, mas a segunda e a terceira foram dentro de um quadro harmônico. “É uma tremenda responsabilidade ser cavaleiro ou treinador”, disse Tom. “Não exponha seu cavalo a situações em que ele possa perder isso (confiança) que acabou de conseguir”.

Uma das marcas registradas de Tom é um pedaço de pano ou um pedaço de plástico na ponta de um chicote de adestramento clássico (1,5 m + ou – ), uma ferramenta que faz com que seu braço fique mais longo e mais perceptível ao cavalo. Usa essa ferramenta para encorajar o cavalo a se movimentar ou mesmo virar para uma nova direção. Algumas pessoas pensam que essa bandeira é a mágica. “Não há nada de mágico na bandeira, é só mais uma maneira que tenho para comunicar minhas intenções ao cavalo”, disse Tom. É como a bandeira vai ser usada que é importante, não ela em si.

Tom consegue muito, num pequeno espaço de tempo, mas ele nunca apressa o processo por nenhuma razão. Muitas vezes ir devagar é o jeito mais rápido de se chegar lá. Se a sua meta é conseguir que o cavalo faça um movimento lateral da esquerda para a direita, Tom agrada ao cavalo quando ele transfere o peso para a esquerda, aliviando (preparando) a direita para sair. Esse é o primeiro de uma série de movimentos que vai construir o movimento lateral desejado. Ele constrói um alicerce a partir do menor sinal do cavalo.

Ele fala muito do movimento das pernas e dos pés dos cavalos. “Se você tem o controle dos pés e das pernas, o resto vem muito mais fácil. Se você está tentando com que o cavalo faça alguma coisa, prepare-o antes para que ele tenha um ponto de partida. Se você tiver paciência para prepará-los, conseguirão. Perceber uma porção de coisas”, acrescenta Tom “Quando o processo é o aprendizado, e não um processo apreensivo, no qual o medo seja a tônica, os resultados não são tão demorados”.

*Jim Overstreet cresceu numa fazenda de criação de gado e cavalos. Atualmente ele e sua esposa moram perto de Big Timber, Montana, onde eles criam suas filhas e QM de origem Hancock.


Texto: Jim Overstreet
Versão: Borba
Publicado: Revista ABQM

 

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