Campo de sonhos e lições

Uma imersão na “objetividade subjetiva” de Eduardo Borba, o mais complexo horseman brasileiro

O que uma pintura de Picasso ou uma foto de Cartier-Bresson tem a ver com cavalos? A comparação, pouco convencional, é um bom ponto de partida para entender o universo reflexivo de José Eduardo Borba, um dos mais inquietos estudiosos da relação homem-cavalo hoje em atividade no Brasil. Sempre disposto a derrubar velhos paradigmas – inclusive os seus próprios – para mostrar novas alternativas, Borba desperta paixões e ódios. Muito mais admiradores, é verdade. Calcula-se que pela sua batuta já tenham passados mais de seis mil alunos e 10 mil cavalos, desde quando começou a dar cursos, na década de 70. Mesmo com toda essa notoriedade e relevância, não faz o menor esforço para se render aos convencionalismos do mercado. Muito pelo contrário: abomina-os. “Já estou muito velho para vender a minha alma”, conforta-se.

Sua postura lhe rendeu certa fama de “durão”. A princípio, não seria nada demais para quem vive no meio de peões, quase sempre com pouco estudo e apenas uma tarefa a desempenhar: cuidar de cavalos e gado. Mas até nesse ambiente rústico ele surpreende. “Já houve um tempo em que achava que era melhor lidar com os cavalos; hoje penso muito diferente: o que importa, mesmo, são as pessoas”, revela, sobre sua incorrigível opção de sempre remar – ou cavalgar – contra a maré. “Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não é simplesmente ser do contra. Na mitologia e tradições religiosas do oriente, nadar contra a corrente significa querer saber onde nasce o rio”, justifica-se.
É desse tipo de visão e preocupação que brota toda a essência do trabalho desenvolvido pelo Projeto , em Capivari, interior de São Paulo. No centro de uma centenária fazenda de cana-de-açúcar, Eduardo Borba e sua companheira Dudi Ometto, ao lado de uma equipe engajada, cultivam uma das mais profundas experiências já realizadas com cavalos, gado e seres humanos. Um trabalho que nasce e renasce a cada dia ao longo de mais de 30 anos, em um incansável exercício de reflexão. É como se quiséssemos definir um quadro de Picasso ou uma foto de Bresson. Impossível emoldurar o que é inexplicável. Cada um tem a sua interpretação. Uns enxergam apenas um quadro e uma fotografia; outros são capazes de passar horas absorvendo uma infinidade de informações e, a cada novo olhar, ver coisas antes inimagináveis.

Pragmatismo filosófico

Se há, aparentemente, muita coisa filosófica no trabalho de Eduardo Borba, há também de pragmático. Para ele, aliás, a filosofia é puro pragmatismo. Nesse sentido deve-se ressaltar que todos os conceitos defendidos nasceram de experiências práticas. De chapéu de aba larga, calças jeans, botas e esporas, Borba é uma mistura de intelectual e cowboy. Ou, como carinhosamente descreve seu filho Tiago, “uma mistura de John Lennon e John Wayne”. Passa a maior parte do tempo em cima ou na lida com os animais. Quando não, está debruçado em livros, vendo filmes e documentários ou fazendo pesquisas pela Internet. O assunto, inevitavelmente, são homens e cavalos.
A essa relação deu-se a denominação de horsemanship. O nome foi introduzido no Brasil, no final da década de 80, pelo próprio Borba, fruto de viagens e cursos que realizou nos Estados Unidos. A tradução, porém, acabou sendo equivocadamente interpretada como uma “técnica” e serviu de esteira para muitos oportunistas transformarem o assunto em espetáculo com requintes circenses. A desinformação era tão grande que, em alguns casos, o próprio “artista” se denominava “o horsemanship”. Quem é do mundo dos cavalos já deve ter visto um desses por aí, que às vezes também atendem pelo nome de “encantador de cavalos”. Deixam platéias de boca aberta, usando truques circenses, que desrespeitam o que o cavalo tem de mais valioso, o seu instinto de autopreservação.
A proliferação distorcida do horsemanship foi tão grande que hoje o Projeto prefere chamar o respectivo curso de “Educação Equestre”. A essência, entretanto, continua sendo o novíssimo horsemanship que apareceu nos Estados Unidos, na década de 70, criado pelos irmãos Tom e Bill Dorrance, e difundido pelo lendário Ray Hunt e seguido por Buck Brannaman, Martin Black, Brian Neubert e outros.
No Projeto , o horsemanship ou, se preferir, “educação eqüestre”, consiste na busca da perfeita integração homem-cavalo por meio de um processo prático e contínuo, no qual a tônica é a “atenção do cavaleiro sobre si” e o respeito pelo “instinto de autopreservação” do cavalo. É uma escola e um laboratório ao mesmo tempo. Borba, Dudi e mais três auxiliares – Matheus (Ega), Mathias (Nena) e Lázaro – trabalham diariamente uma tropa de aproximadamente 20 animais. A maioria é Quarto-de-Milha. O quadro de cavalos-professores, entretanto, é bem eclético. Há Mangalargas, Puro Sangue Inglês e Anglo-Árabe, todos muito bem preparados para trabalhar com o grupo de alunos de diferentes níveis.
Os cursos ocorrem quase sempre em datas especiais, em períodos de três a 10 dias, e nunca tem mais do que seis alunos. Embora as atividades sejam em grupo, cada um recebe atenção especial. Borba tem um jeitão de italiano, fala alto e quase sempre é direto em suas observações. Nem por isso deixa de ser didático e atencioso. Pelo contrário. Sua capacidade de transmitir experiências e conhecimento em pouco tempo cativa os alunos, que o reverenciam como verdadeiro mestre.
Talvez seja essa uma das principais características de seu perfil: um homem aparentemente áspero por fora, mas ao mesmo tempo sensível, preocupado em ensinar e aprender ao mesmo tempo. Durante os cursos, muitas soluções aparecem como resultado do trabalho das pessoas. “Crio a situação, mas a solução vem de dentro delas e, a partir daí, passam a fazer parte da minha experiência. Acredito que a cada curso aprendo muito mais que os próprios alunos, por causa da experiência e da minha cabeça estar mais preparada”, afirma ele, satisfeito. “O que quero que as pessoas compreendam é que o cavalo é um animal que pensa, sente e decide. Tem um ponto de vista e uma capacidade enorme de aprender”, completa.
Borba é conhecido por dizer as coisas que pensa. Trata todos de maneira igual. Quase sempre não faz distinção entre o dono de fazenda e o empregado. Se precisar dizer algo, mesmo que desagrade, o fará.
Da mesma forma, é capaz de passar horas explicando a um peão conceitos filosóficos e culturais que estão muito além do que se imagina na lida com os cavalos. “Independente do seu grau de cultura ou estudo, todos tem direito de ter a melhor informação. É como diz o Sebastião Salgado: o pobre também tem direito a uma boa fotografia”, justifica-se, em mais uma de suas recorrentes citações.

Do caos às descobertas

O que diferencia Eduardo Borba dos demais domadores e professores é a sua preocupação com a essência e os fundamentos do que acredita ser a forma mais correta de lidar com os cavalos. Avesso às metodologias fechadas, defende que o verdadeiro aprendizado só se faz por meio da prática. “Aqui teorizamos o praticado. O desenvolvimento é algo individual, depende exclusivamente de cada um”, explica.
Na sua visão, qualquer método pode ser considerado correto, desde que nos leve ao sucesso e não vá contra os princípios que regem a perfeita integração homem-cavalo. Essa é a diferença do verdadeiro horsemanship daquele que tem como meta o circo. “Não existem atalhos nem truques”, afirma, categoricamente.

A arte de dançar

Talvez a melhor metáfora para tentar explicar o que acontece com cavalos e cavaleiros seja a dança. A relação se estabelece por meio de dois corpos executando movimentos contrários, mas complementares, cada qual em sintonia e harmonia com o outro. “Quando duas pessoas estão dançando, há parceria entre ambos e a dominação do condutor ocorre de forma equilibrada e consentida e imperceptível. Os pares se encaixam”, exemplifica.
Evidente que existem algumas técnicas que facilitam essa execução. O ponto fundamental, porém, é o grau de sensibilidade com o qual se estabelece a relação. O próprio Borba reconhece o desafio. “No mundo conturbado de hoje, as pessoas estão muito mais ligadas nas coisas mecânicas: faça isso para obter aquilo. Querem uma técnica para solucionar um determinado problema. Mas se esquecem que ela representa só metade do trabalho; a outra metade está em como aplicar essa técnica e, em se tratando de cavalos, ‘tudo depende’”.
O que Borba quer dizer é que, na verdade, as pessoas não se preocupam em estar numa imersão mais profunda. “Quando começamos a descer mais na questão do desenvolvimento do tato, timing e bom senso, e da preservação, a maioria das pessoas muda de assunto”, lamenta-se.

Eterno aprendizado

A essa altura o atento leitor já deve ter entendido por que o título da capa é “o inexplicável Borba”. Há, de fato, certa “complexidade” na abordagem, mas que de maneira alguma deve ser confundida com “complicação”. É tudo muito simples, na mesma medida em que é subjetivo, abstrato e extremamente intuitivo. “Mas também é objetivo, prático e racional”, contrapõe. É por isso que para Eduardo Borba não existe “explicação” (na concepção clássica da palavra), mas sim “sensação”. Algo que vem da alma, do coração, de dentro para fora e que se aflora no momento da prática. Uma atividade que exige entrega, dedicação e, sobretudo, concentração. “Não basta apenas fazer; é preciso ter atenção sobre si, para sentir e poder então compreender o que se está fazendo como um todo”.
Não é de se espantar que tal visão encontre obstáculos nas pistas de prova de diferentes modalidades. Borba, como criticam alguns, nunca foi um “campeão” para justificar sua filosofia. “Mas o que importa isso?”, rebatem seus admiradores. E eles tem absoluta razão. O que Borba tem de conteúdo vai muito além do que uma boa performance em competição; é algo que tem muito mais a ver com a qualidade de vida. Algo mais alto que um pódio e mais profundo do que os limites do chão.
Só isso já justificaria sua grande relevância no meio equestre. Seu alto grau de conhecimento o fez um treinador respeitado e requisitado em várias partes do Brasil e da América Latina, onde o tema seja cavalo e gado. A seriedade com que trata os cavalos e gado extrapolaram os limites do redondel e dos currais. Hoje Borba é muito mais um domador de pessoas, do que de animais. Um homem que, aos 62 anos, mantém aceso o seu sonho de menino-cowboy, na frenética e incansável corrida atrás de respostas, nem sempre a mostra nas superficialidades do dia-a-dia. Mais do que técnicas e métodos, o que Borba propõe é uma nova – ou genuína – forma de perceber a vida, onde se há muito mais para se sentir do que para se explicar. Para ele, para descobrir esses caminhos não existe melhor parceiro do que os cavalos e o gado.

Marcelo Mastrobuono
Revista Horse
Junho 2009 nº 11

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